Santa Isabel, 6 de Janeiro de 2009 - Edição n° 702
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O VELHO

Reencontrei-o um dia desses quando caminhava pela Avenida República.
– Incomoda-o se conversamos enquanto caminhamos? - perguntou.
– Não! Claro que não. - respondi.
Disse-me que a sua cidade tem uma avenida muito parecida com a República e que não fosse pela quantidade de gente que por ela caminha e pelo grande número de casas comerciais, elas seriam iguais.
– Descalça e residencial. É assim a grande avenida da minha cidade. O senhor pode imaginá-la mesmo não conhecendo?
Pensei dizer-lhe que, não faz muito tempo, a República era também descalça e residencial e que por isso não seria difícil dar forma à paisagem que descrevia. Não o fiz. Não relego a plano secundário as relações entre memória e vivência. Logo, pareceu-me lógico e racional deixá-lo falar, afinal o verbo em tempo presente que utilizava para retratar a sua cidade, já não me era possível.
– As casas são esparsas e seus quintais, enormes. Todavia, é possível que no futuro ela fique parecida com o que vemos aqui. - profetizou.
– E isso não lhe parece bom? - questionei.
– Não! Claro que não! Mas o que podemos fazer? E não é só a grande rua que passará por um processo de transformação. - advertiu.
– O que mais poderá acontecer? - perguntei.
– Algo mais ou menos parecido com o que deve ter ocorrido por aqui. Os morros que ladeiam a estreita planície e alguns outros, não importa se menores ou maiores, serão ocupados de maneira desordenada. Os pequenos rios que cortam os vales também deixarão de existir. - explicou.
O Velho falava da minha cidade como um retrato fiel da falta de planejamento urbano e lamentava pelo futuro da outra, cuja sedutora paisagem natural, de forma nada generosa, seria empurrada por seus filhos para um semelhante destino.
Pensei dizer-lhe que tudo tem um preço e que há que se pagar por ele quando, a passos largos, se caminha rumo à modernidade. Não o fiz. Tinha diferentes razões para não contrariá-lo, sobretudo porque já não estava tão certo do meu conceito de modernidade. Logo, pareceu-me lógico e racional não abrir a boca e deixá-lo falar dos seus medos e do que lhe parecia, pelo menos razoável, na ocupação do Vale do Araraquara e dos morros que o cercam.
– Gosto muito daquela igreja lá no alto. - disse esboçando um sorriso.
– Qual delas? Há uma de cada lado. - procurei saber.
– A maior!
– Pela imponência?
–Também! Mas principalmente porque não consigo imaginar qualquer outra edificação naquele lugar. Foi uma escolha inteligente. Um belo local.
Por um instante, parei observando a Matriz. Nunca havia pensado na possibilidade da sua não existência ou de qualquer outra construção no Morro do Santíssimo.
– Fale mais sobre a igreja e sua localização. - Insisti.
Depois de esperar por uma resposta que não veio, voltei-me para o Velho e percebi que ele não mais estava ao meu lado. Busquei-o em meio a outros transeuntes e, até onde minha vista alcançou, não o identifiquei. Estava seguro de que já havíamos estado juntos, mas não arranquei da memória de onde o conhecia.
Ah! Um abraço ao meu primo Romeu de Almeida Machado, dono de um acervo fotográfico que preserva, descalça e residencial, uma avenida chamada República. 

Armando Machado




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