MARINHO: O CAMINHONEIRO COMPOSITOR
O grande vencedor do Concurso de Marchinhas de Santa Isabel, Mário de Souza Arantes, o Marinho, é um homem dividido entre três paixões: a família, Igaratá e Santa Isabel.
Nasceu em Igaratá Velha em 1947 e viveu durante anos nas proximidades do bairro Bom Sucesso, onde a família tinha terras.
Mário conta que a vida na roça era muito difícil, “a gente levantava de madrugada e ia ordenhar as vacas e cuidar das criações”, lembra. Depois disso, Mário recorda que percorria 18 quilômetros para ir a escola. “Caminhava de pé no chão, e as unhas viviam machucadas pelos tropeços que sofríamos no percurso”, revela.
Seus pais, Antônio Joaquim de Souza e Antônia Arantes, batalharam para que os dez filhos não desistissem de estudar. Mas Mário diz que, na época, as coisas pareciam mais complicadas, que o professor precisava segurar as mãos calejadas dos estudantes para ajudá-los a formar as primeiras letras.
Vendo a dificuldade dos filhos, o pai de Mário cedeu uma tulha, “sabe o que é tulha filha?”, questiona Mário. Tulha é o lugar onde se armazenava o milho. “Foi na tulha que o bairro começou a ter suas primeiras aulas”, lembra.
Segundo Mário o primeiro professor a dar aulas no Bom Sucesso foi Zico Camargo, um homem negro, forte, que assumiu o percurso de 18 quilômetros, “Zico ia a pé dar aulas, e ainda arrumava tempo, para passar para a comunidade a tradição do samba de roda”, conta.
A música, então, entrou na sua vida. Sorridente, Mário revela ter saudades das festas de São João, do povo reunido em torno da fogueira, dos batuques do surdo e do cortejo entre as moças e os moços da roça. “As mulheres desfilavam, com os braços enganchados umas nas outras. E nós, os rapazes, ficávamos em grupos observando as donzelas passearem”, conta.
Foi assim que Mário conheceu sua esposa, “Toninha”, como é conhecida. “Nosso casamento foi o último a ser realizado em Igaratá Velha”, conta.
Em 1970 Mário veio para Santa Isabel, morou numa casa de um cômodo, onde ele e a esposa eram obrigados a tomar banho na pia onde montaram uma pequena cozinha.
Lá mesmo, Mário teve a primeira filha, Audrey, que faleceu com dois meses de idade, sufocada no travesseiro. “Nós éramos jovens e inexperientes, não sabíamos muita coisa. A Audrey era linda, olhos claros como o dia”, lamenta.
Corajoso, Mário comprou seu primeiro caminhão novo, morando ainda no pequeno cômodo, “me custou 120 mil cruzeiros e eu tinha 24 meses para pagar”, recorda. Por isso, ele passou a trabalhar até 20h por dia, carregando areia e pedra para São Paulo. “A última carga que levei, foi para a construção do Shopping Center Norte”, recorda.
Cerca de 15 anos passou atrás do volante de um caminhão, na época, as coisas progrediram e ele trocava de veículo para garantir o serviço de qualidade.
Só quando o negócio começou a cair, Mário desistiu do ofício de ser caminhoneiro e trocou seu meio de trabalho por uma padaria. Mas o comércio só se tornou a Padaria Mineira, mais tarde, quando o sucesso dos queijos e guloseimas trazidas de Minas Gerais deslanchou.
Na ocasião, os filhos já tinham nascido, e a vida já tinha outra estrutura. “Santa Isabel me deu muito, grandes amigos e um pouso para criar meus filhos”, diz.
Questionado se os filhos: Silvia Monica, Mário Alex, Bruna Maria e Marcos Paulo sentiram ciúmes da dedicação de Mário pelo trabalho, ele conta que quem mais sofreu com sua ausência foi a esposa. E numa autoanálise diz que seu defeito foi ser muito trabalhador. “Quem trabalha demais não ensina, não dissemina funções e por isso não se dá o tempo do lazer, de curtir a família”, lamenta.
Embora apaixonado pela música, Mário diz que só começou a compor em 2006, quando numa tarde de domingo, lembrou de um compositor isabelense, “saudoso Carlinhos”, como o chama, que viveu e morreu solitário. “Pensando nele, comecei a escrever e percebi que conseguia compor”, diz.
Desde então, já fez baladas, escreveu alguns sambas e cantigas de roda. “Nem sempre vem a inspiração, mas é maravilhoso quando, de repente, de um verso surge toda uma canção”, conta.
E para resgatar a música de raiz, Mário finaliza a entrevista convidando a todos os violeiros da região que tenham a Padaria Mineira, comércio da família, como local de encontros do resgate musical.